Céu estrelado, dromedários e temperatura negativa numa noite no Deserto do Saara


Conhecido aqui do Passaporte Oficina, o empresário Tércio Pereira teve uma virada de ano incrível, no meio do Deserto do Saara. E todas as impressões e detalhes ele divide com a gente agora.


O que me levou a ir pra Marrocos
Em um jantar com amigos surgiu o assunto Marrocos e um dos convidados falou que passou um mês e faltou tempo para conhecer tudo. Resolvi pesquisar e a cada pesquisa que fazia mais me interessava por aquele país. Além das montanhas, cidades imperiais, Deserto do Saara, comidas exóticas e dromedários, a passagem era bem acessível e o custo por lá também.



Quando fui
Fui no Réveillon de 2017. Logo eu deveria ter investido uma pequena fortuna pela hospedagem e passagem, certo? Errado. Marrocos é um país islâmico, vive em um outro calendário. O ano novo deles começou em novembro (eles nem estão em 2017, estão agora em 1439!) e como era Inverno, os preços nos hotéis eram super em conta. Fiquei em Marrakesh que e é uma cidade muito frequentada por europeus, portanto, havia celebração da virada do ano em alguns bares. Mas não espere muita coisa, a começar que bebida alcoólica não é tão acessível assim.


Custo para dormir no Deserto do Saara
O passeio para Zagora de uma noite saiu por menos 80 dólares. Incluía o transfer (900 quilômetros aproximadamente), os guias, passeio de dromedário, tenda, janta e café da manhã no deserto, além da visita a algumas cidades.


Como foi
Fui pra Marrocos sozinho, logo de cara me colocaram num micro-ônibus só com casais. Graças a Deus, ou a Alá, me trocaram para outro veículo onde só havia solteiros. Eram 17 pessoas de 14 diferentes nacionalidades. Lógico que o brasileiro fez amizade com todos, né? Saímos de Marrakesh por volta das 8h. Começamos cruzando as Montanhas do Alto Atlas através do Tizi n’tichka em direção à aldeia de Ait Benhaddou. Depois paramos no Draa Valley conhecido pelos seus incríveis Ksour e Kasbah. Tudo isso antes de subir os 1.160 metros na terra árida de Quarzazate.

Entre esta última mencionada e Zagora ficávamos admirados com os vales surreais de Marrocos. Cada aldeia em que parávamos, queríamos levar todos os artesanatos possíveis. Depois de um dia cheio dessas vistas e muito tagine e chá, chegamos aos nossos dromedários. Cada um pegou o seu e fomos deserto adentro (por cerca de uma hora). Não, não é confortável andar num animal daqueles. E, sim, eles são bem protegidos para que não os machuquem. No meio do trajeto rolou o pôr-do-sol. É surreal ver o sol se pondo no deserto, mas não foi a parte mais legal.

Chegando às cabanas, os berberes (nativos do deserto) nos alocaram numa tenda principal onde rolou uma janta. Aproveitamos para nos conhecer melhor, falando sobre nossos países de origem. Logo depois fomos para uma fogueira contemplar o céu. Jamais conseguiria contar quantas estrelas vi. Nem o frio de 10 graus negativos esfriou este momento. A viagem inteira teria valido só por esta visão. Depois de muita cantoria - e nenhum álcool - fui dormir. Cada minuto que passava parecia que diminuía um grau na temperatura daquela noite.


O que passa na cabeça de uma pessoa dormindo no deserto em um país islâmico?
O ser humano é realmente muito preconceituoso. E eu me incluo. No meu pensamento inicial o receio era ser capturado pelo Estado Islâmico, que iria me cortar o pescoço! Imagina então quando, no meio da noite, começam latidos fortes de cachorro? Depois de superado esse momento, teve ainda meu cérebro começando a cogitar a ideia de uma cobra entrar na tenda e me picar. Não ia dar tempo de me levar para o hospital devido à distância. Foi aterrorizante. Ainda bem que tinha uma melatonina na carteira que tinha sobrado do voo. Tomei e capotei. Quando acordei fui conversar com meus novos amigos. Todos haviam pensado da mesma maneira! Me senti menos preconceituoso, ou, pelo menos, uma pessoa normal.

                                                                                                        
O retorno à civilização
Pôr-do-sol fantástico, céu estrelado surreal... Agora, o nascer do sol no deserto é algo que você NÃO pode morrer antes de ver. Entendeu? Você precisa fazer isso um dia na sua vida! É uma explosão de cores. Dava vontade de chorar de tão lindo. Tomamos um café que esfriava assim que você tirasse da térmica, comemos um pão seco que lá eles chamam de comida típica, pegamos nossos dromedários e fomos rumo ao micro-ônibus. De lá, fomos a algumas cidades que serviram de cenário para produções como A Múmia, Cleópatra, Game of Trones, entre outros. Chegamos de volta a Marrakesh por volta das 19h.


Além do deserto o que fiz
Tinha pouco tempo, pois meu foco era exclusivamente este passeio. Mas fui conhecer Marrakech. Cidade linda, segura, todos os lugares têm preço bom. A mesquita de Koutoubia é algo que vale a pena conhecer. Mas o que mais me encantou foi o Jemmal El-Fna. Lá tem muitas cobras sendo hipnotizadas, muitas lojas de artesanatos, o melhor suco de laranja do mundo e muita comida estranha. Comprei artesanato. Vi as cobras, corri das cobras, me apavorei com as cobras. E comi um monte de coisa que não sei o que eram e como se chamavam. A mais “entendível” foi uma lesma (juro que é uma delícia).


Você indicaria ir a Marrocos?

Jamais faça o que fiz. Ficar apenas três dias é pouco. Fique 15 dias, explore Marrocos inteira. É um país fantástico. Tem deserto, montanhas com neve, quatro estações em um único dia, falam quatro línguas oficiais, são super simpáticos, amam os brasileiros.  Tem cidades vermelhas, azuis, brancas... Uma culinária incrível. Indico muito! Um dos lugares mais incríveis que visitei, e olha que a minha lista não é pequena!