Veja como é a rotina de um Comissário de Voo

Jeferson Ulir Hirt. Crédito: Revista Viagem e Turismo (Abril).


Apaixonados por viagens e, sobretudo, por viagens aéreas, provavelmente já pensaram em um dia trabalhar como comissários de voo. Imagina que sonho trabalhar viajando e conhecer diversos destinos? Mas, como toda profissão, tudo tem seu lado positivo, mas também algum ônus. “A rotina não existe nessa profissão, pois cada dia é um dia diferente, com destinos e horários quase que improváveis. Para muitos, é um sonho! Ela existe, mas somente no operacional, pois a rotina de vida diária, não existe”, comenta o comissário de voo e jornalista, Jeferson Ulir Hirt, 28 anos. Para celebrar o 31 de maio, Dia Internacional do Comissário de Bordo, também conhecido como Dia Internacional do Comissário de Voo, conversamos com o Jeferson para matar algumas curiosidades dessa profissão. 

Passaporte Oficina: Desde quando você é comissário? Como surgiu esse desejo em seguir essa carreira?

Jeferson: Iniciei a carreira em 2006, por acaso. Caí de paraquedas na profissão. Certo dia uma amiga estava falando sobre a profissão e então tive um “clique” para pesquisar sobre. Fiquei tão empolgado com tudo que descobri que na mesma semana eu me matriculei no curso obrigatório de “Comissário de Voo” (julho/2005). Assim que recebi a aprovação do DAC (Departamento de Aviação Civil – hoje é ANAC, Agência Nacional de Aviação Civil) enviei meu currículo para as empresas aéreas. Na mesma semana recebi comunicado de que iria fazer o processo seletivo. Fiz o processo seletivo em São Paulo durante dois meses e em fevereiro de 2006 fui contratado.

Passaporte Oficina: Como é processo para se tornar um comissário de voo?

Jeferson: Para ser um comissário de voo, é necessário ter três habilitações.

1ª etapa: Fazer o curso de “Comissário de Voo” em alguma escola de aviação homologada pela Anac. Fazer aulas e provas teóricas e práticas desse curso – é necessário ter presença nas aulas e notas boas para ser aprovado. Com a aprovação, faz a prova da ANAC (2ª etapa). O curso dura de 3 a 6 meses, dependendo da quantidade de aulas por semana.

2ª etapa: Prova da ANAC. Uma prova de múltiplas escolhas para avaliar o conhecimento teórico. Se aprovado, o candidato vai receber a primeira habilitação: CCT – Certificado de Capacidade Teórica. Este certificado dura para a vida toda.

3ª etapa: Tirar o CCF – Certificado de Capacidade Física (2ª habilitação). Para isso, é necessário ir ao Hospital da Aeronáutica. Lá será feita uma bateria de exames. Então o comissário recebe o CCF. Esta habilitação, atualmente, precisa ser revalidada a cada cinco anos (antigamente era todo ano). A revalidação é feita em um dia, diferentemente do inicial, que é em dois dias. Com essas duas habilitações, o comissário agora pode enviar o currículo para as empresas aéreas (a empresa aérea vai dar a 3ª habilitação).

4ª etapa: Mandar currículo para as empresas. Fazer o processo seletivo e se preparar muito bem para ele. Postura, sorriso, boa dicção e simpatia são essenciais para a profissão. Além disso, ter conhecimento de outros idiomas tem sido primordial para a contratação, sendo o idioma inglês fundamental.

5ª etapa: Depois de contratado, a empresa aérea vai dar um curso de treinamento de aproximadamente dois meses. Nesse treinamento serão abordados assuntos como serviço de bordo, normas de segurança da empresa, procedimentos de emergência e até mesmo aulas de combate ao fogo, primeiros socorros e sobrevivência na selva/mar/gelo. E principalmente, o comissário vai ter aula sobre o avião/equipamento no qual ele vai trabalhar/voar. Esse curso vai garantir ao comissário a 3ª habilitação, CHT – Certificado de Habilitação Técnica. Essa habilitação será renovada todo ano pela empresa aérea com os cursos, tudo de acordo com as normas da Anac. Além das provas teóricas, tem a prova oral (o temido “cheque”) que também é feito no início e em todas as revalidações desta habilitação. O importante é estudar e ter todo o conhecimento na ponta da língua.

6ª etapa: Pronto! Agora é só começar a voar. Inicialmente como “comissário aluno”, durante aproximadamente três meses, período em que o comissário passará por treinamento prático, junto de outro comissário instrutor. Quando aprovado, passa a iniciar carreira de comissário de bordo auxiliar em voos nacionais podendo chegar ao cargo de chefe de voos internacionais (demora uns 15 anos para isso acontecer, dependendo da empresa).

Passaporte Oficina: Fale um pouco sobre a sua rotina, como é?

Jeferson: Recebemos uma escala mensal, com os dias de voo, dias de folga, dias de treinamento, dias de “plantão” (reserva: plantão no aeroporto, uniformizado; sobreaviso: plantão em casa). Com a escala em mãos, podemos organizar a vida pessoal. Na escala, está escrito também os horários dos voos que iremos fazer. Duas horas antes do voo (para voos internacionais; uma hora para voos nacionais) a tripulação vai se reunir no D.O. (Despacho Operacional) da empresa – local em que as tripulações se encontram para iniciar o voo. Lá todos se apresentam um ao outro e fazem um briefing, uma reunião para relembrar procedimentos tanto de segurança quanto de serviço, além de alinhar o trabalho de todos com o do comandante e do comissário chefe do voo.  Depois vamos para a aeronave, onde nos preparamos para o embarque. Neste momento vamos checar todos os equipamentos de segurança, organização da cabine, limpeza do ambiente e também vamos organizar o serviço de bordo. Fazemos a demonstração de segurança (hoje em dia é feito em vídeo – só quando falha que fazemos a demonstração de máscaras, portas, cintos, etc). Depois da decolagem, fazemos o serviço de bordo e depois ficamos atentos às solicitações dos clientes. Antes do pouso fazemos cheque de segurança novamente. Num dia de trabalho podemos fazer até 5 pousos e depois temos um período de descanso no hotel, que varia de acordo com o próximo voo. Pode ser um descanso de 12 a 30 horas, mas não há regra para limite máximo de descanso, só para o mínimo de 12 horas de descanso. O Brasil é o único país que possui uma lei específica para o trabalhador aeronauta, e esta lei é bastante rígida para todos os lados. Por isso, a regulamentação da aviação brasileira é muito bem vista no exterior. Somos muito avançados neste tema. Apesar ser muito antiga e precisa ser revista, ela ainda é referência para o mundo todo.  Podemos ficar fora da base no máximo 6 dias de voo – o sétimo dia sempre será folga. Temos 8 dias de folga, no mínimo, por mês, sendo que duas delas precisam ser juntas num final de semana (folga social).


Achou que seria fácil? São muitas horas de dedicação e estudos para poder se capacitar para seguir a carreira. Mas se este é seu sonho, vale todo o esforço! Parabéns aos profissionais pelo seu dia!